domingo, 21 de janeiro de 2007

# 30

estamos a sós. por fim. fim? não, meu amor. pensei-o. quase o desejei para pôr um ponto final nesta angústia que por vezes me assalta. estás silencioso.
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olho-te. reparas que olho para ti. levantas-te e partes.
a força que me animava desfaz-se. precisava de ti esta noite, meu amor. só que estivesses aí. e eu aqui. sem nada mais...
nada mais...
nada...

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

# 29

que faço eu aqui? com que falo hoje? hoje que as palavras são tão necessárias e não me ouvem.
tu ouvi-la-ás, não sei como mas sinto que me guias. como me vêm à memória todas as palavras que me disseste quando eu precisei de ti. chamava-te e vinhas, e eu contigo falava, falava, abria o meu coração, falava do meu amor, meu amor. contei-te coisas que nunca tinha contado a ninguém. e tu dizias que era linda. e eu acreditava. eu dizia que também eras. que eras. e nós acreditavamos porque era assim que nos sentíamos, era assim que nos víamos, eu a ti, tu a mim. ainda hoje. ainda hoje é como te vejo. e verei para sempre, minha baga, minha rosa vemelha.
foi paixão. tu o disseste. querias-me toda, só para ti, até sentires a saciedade. até te saciares, depois, depois podias ir, deixar-me, para mais tarde nos voltarmos a encontrar. lembro. lembro de tudo. da nossa dávida. do nosso amor. do encontro.
são tão difícil os encontros nesta vida. nesta vida tão efémera num mundo tão imenso. e nós encontramo-nos. e pudemos tudo. quase tudo. e é nesse tudo que eu penso quando te sinto. tão presente. tão em mim. e no entanto... é tempo de sonhares, vai, voa, com todo o meu amor, minha baga silvestre.

domingo, 14 de janeiro de 2007

# 28

e nesta madrugada...
esta madrugada fria, tão fria, meu amor...

# 27

era madrugada. eram madrugadas os nossos dias e as nossas noites. eram madrugadas e nós nem as víamos. eram madrugadas frias que pelo riso pelo choro pelo grito pelo amor se tornavam calor. eram madrugadas onde parava o relógio e desparareciam os traços do mapa das estradas e das constelações. eram madrugadas habitadas pelo mar de uma luz que nos inundavam. era... era, meu amor?
era... e esta madrugada?

sábado, 13 de janeiro de 2007

# 26

chama-me, meu amor.
chama-me pois já não encontro o caminho. os meus passos estão presos. as minhas mãos duras de tanto se abrirem. volteio e revolteio. estonteada. e de repente caio. caio num abismo presa apenas por um qualquer fio que me suspende à vida.
também eu percorro um corredor imenso labiríntico sem portas, com portas que se fecham, com portas que se emparedam. ou eu que me emparedo?
já fui pérola do teu colar e teu berço, teu cálice onde bebias sofregamente, eu sei. também eu te bebia. te chorava. me inundava de ti. já fui pérola, e conta, e bago de amora. já fui... onde estou eu, meu amor? quem sou eu, amor meu?

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007

# 25

respirávamos lado a lado. como não nos víssemos. como não exístissemos. como só existíssemos um para o outro. um no outro. respirávamos e existíamos. um no outro. fecho os olhos. não preciso de te ver. olho-te com o meu corpo. olho-te sem o meu corpo, ou cabeça, ou coração. olho-te, sinto-te através de algo que me transcende. não sei se estás aí. (mas) estás. estares é tudo. estarmos. respirando. agora, meu amor.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

# 24

estendo a minha mão em direcção a ti. ao teu rosto cabisbaixo. olho-te. se me olhasses agora vias os meus olhos. sinto-os ternura. ternura doce. ternura cor rosácea de bago de romã. ternura líquida de um sumo mel. mel como a cor da tua barba. fina. toco-a. acaricio-a tão ao de leve que mal a sentes. ou sentes, meu amor? não há desejo, apenas esse toque. percorro com o olhar esse pedaço de rosto. detendo-me em cada fio. e o meu olhar é uma carícia que ao mesmo tempo te beija. estás tão perto, tão perto de mim, meu amor. estás em mim, amor. aproximo a mão. a tua pele. macia. percorro a linha do teu rosto. a tua pele amor. na minha. a pele da mão a pele da tua face. a pele una. a minha mão toma o gesto do teu rosto. curvo. não sei se és tu que levantas a cabeça se é a minha mão que a ergue. são os nossos olhos que se encontram. somos nós, amor. nós.

domingo, 7 de janeiro de 2007

# 23

Boa-noite, meu amor.

# 22

2º motivo da rosa

Por mais que te celebre, não me escutas,
embora em forma e nácar te assemelhes
à concha soante, à musical orelha
que grava o mar nas íntimas volutas.

Deponho-te em cristal, defronte a espelhos,
sem eco de cisternas ou de grutas...
Ausências e cegueiras absolutas
ofereces às vespas e às abelhas.

E a quem te adora, ó surda e silenciosa,
e cega e bela e interminável rosa,
que em tempo e aroma e verso te transmutas!

Sem terra nem estrelas brilhas, presa
a meu sonho, insensível à beleza
que és e não sabes, porque não me escutas...

Cecília Meireles, dedicado a Mário de Andrade


Se eu pudesse amar uma rosa, meu amor
se tu fosses essa flor,
iria ao jardim todos os dias
ver a chuva beijar-te
- e se não houvesse, levar-te-ia água e beijos -
sentada num daqueles bancos
amando-te
em pianissimo silêncio

sexta-feira, 5 de janeiro de 2007

# 21

estou cansada, meu amor. fisicamente cansada. mesmo eu que não sinto o meu corpo. já não tenho corpo. corpo de prazer. corpo de pele. corpo de desejo. só a minha cabeça tem corpo e desejos de cabeça que nada têm a ver com corpos. cansada sim, do trabalho, da falta de afecto, da falta de amor. já não te desejo. não sei nada do desejo. e não falo do frémito do olhar que faz ansiar o toque. digo do desejo de te ter perto de mim. estás tão longe. tão longe que não sei se te amei ou amei um desejo qualquer de amor. estou cansada de não rir. de ter de arranjar motivos para sorrir. sim, arranjo-os, para me manter à tona. eu nunca serei o que eu acho que tu gostarias. nem quero ser. apetece-me avacalhar. vulgarizar-me. não, quero mesmo é poder ser eu, seja lá o que isso for. nem que tu não - já? - me ames, quero conseguir ser eu. e sorrir. e rir, meu amor.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

o primeiro de outros dias

nada quero que me dês. nada que não venha do teu coração. sei que também não darias nada que dali não viesse. posso pedir-te uma coisa apenas? abre, abre a tua mão, deixa voar o teu coração. como um pássaro. é nosso o mundo, meu amor

dá-me

dá-me algo mais que silêncio ou doçura
algo que tenhas e não saibas
não quero dádivas raras
dá-me uma pedra

não fiques imóvel fitando-me
como se quisesses dizer
que há muitas coisas mudas
ocultas no que se diz

dá-me algo lento e fino
como uma faca nas costas
e se nada tens para dar-me
dá-me tudo o que te falta!

carlos edmundo de ory
doze nós numa corda"
poemas mudados para português
por herberto helder
assírio & alvim1997