domingo, 7 de janeiro de 2007

# 22

2º motivo da rosa

Por mais que te celebre, não me escutas,
embora em forma e nácar te assemelhes
à concha soante, à musical orelha
que grava o mar nas íntimas volutas.

Deponho-te em cristal, defronte a espelhos,
sem eco de cisternas ou de grutas...
Ausências e cegueiras absolutas
ofereces às vespas e às abelhas.

E a quem te adora, ó surda e silenciosa,
e cega e bela e interminável rosa,
que em tempo e aroma e verso te transmutas!

Sem terra nem estrelas brilhas, presa
a meu sonho, insensível à beleza
que és e não sabes, porque não me escutas...

Cecília Meireles, dedicado a Mário de Andrade


Se eu pudesse amar uma rosa, meu amor
se tu fosses essa flor,
iria ao jardim todos os dias
ver a chuva beijar-te
- e se não houvesse, levar-te-ia água e beijos -
sentada num daqueles bancos
amando-te
em pianissimo silêncio