# 38
já não me dóis. não me dóis hoje. já não sou ferida aberta. não és a minha ferida. aberta. não sei se és um órgão qualquer do meu corpo. que lateja sem que eu me aperceba.
como pode o amor viver na ausência do olhar? como, meu amor? responde-me, eu sei que tu o viveste. tenho a certeza, tanto quanto se pode ter a certeza que existes e que ao mesmo tempo és uma nuvem. a certeza de que um dia fui eu para ti, a dor. e deixei de o ser. como tu, agora para mim. contudo, nada disto apaga a nossa condenação. tu a mim. eu a ti. amor nosso invisível e eterno.
sinto-te nuvem. construção quase infantil. podia ter imaginado monstros e montes, braços e barcos, rostos e risos em eco. mas imaginei. te.
agora talvez corporizes estas minhas nuvens que chovem e choram, que envolvem e voltam. as minhas mãos pesadas que desenlaçam correntes de lágrimas. os pés plantados no chão de madeira. a curvatura de meu corpo sem saber se se une à terra, se levita. a dor física e real da entrega.
ouço as vozes, cânticos que me evolam. para lá para além, fica maria ana irmã. nossa irmão meu amor?
