sábado, 24 de março de 2007

# 38

já não me dóis. não me dóis hoje. já não sou ferida aberta. não és a minha ferida. aberta. não sei se és um órgão qualquer do meu corpo. que lateja sem que eu me aperceba.
como pode o amor viver na ausência do olhar? como, meu amor? responde-me, eu sei que tu o viveste. tenho a certeza, tanto quanto se pode ter a certeza que existes e que ao mesmo tempo és uma nuvem. a certeza de que um dia fui eu para ti, a dor. e deixei de o ser. como tu, agora para mim. contudo, nada disto apaga a nossa condenação. tu a mim. eu a ti. amor nosso invisível e eterno.
sinto-te nuvem. construção quase infantil. podia ter imaginado monstros e montes, braços e barcos, rostos e risos em eco. mas imaginei. te.
agora talvez corporizes estas minhas nuvens que chovem e choram, que envolvem e voltam. as minhas mãos pesadas que desenlaçam correntes de lágrimas. os pés plantados no chão de madeira. a curvatura de meu corpo sem saber se se une à terra, se levita. a dor física e real da entrega.
ouço as vozes, cânticos que me evolam. para lá para além, fica maria ana irmã. nossa irmão meu amor?

quinta-feira, 22 de março de 2007

# 37

não te penso, meu amor
ou lembro

és a minha sombra sem alguma vez que te veja ou pressinta



meu sangue

quantas vezes me manténs viva... amor...

domingo, 18 de março de 2007

# 36

as nossas últimas palavras...
o nosso último beijo de areia e mar...


amor

meu?


dá-me uma venda para não te ver.
dá-me o vazio para não te pensar.

e por fim arranca-me a pele, a boca:
amén!
(seja feita a TUA vontade...)


um destes dias será Páscoa!, meu amor

quarta-feira, 14 de março de 2007

# 35

ouço o meu nome. poderia ser beatriz de uma vita nova... ou
poderia ser a tua voz, meu amor. poderia ser a tua voz se me chamasses. se existisse.
não sei se eu, ou a tua voz.
ou o nosso desejo.
se existisse... meu amor.

domingo, 11 de março de 2007

# 34

tomo nas minhas mãos as tuas palavras. pego nelas como numa flor. sem lhes tocar, acaricio-as.
e um beijo - oh meu amor - torna-se lágrima

sexta-feira, 9 de março de 2007

# 33

não és a minha vida. não estás na minha vida.

apenas, meu amor...

és
me

. e
respiro.

quinta-feira, 8 de março de 2007

# 32

um dia houve em que me ofereceste túlipas.
túlipas como um quadro de Noronha da Costa.
túlipas
tuas, meu amor.

hoje. hoje, sinto-me névoa ou nada.
nada num aperto.

se te olhar hoje meu amor
se te olhasse agora...

fecho os olhos...

não quero a dor da tua ausência. não a quero, meu amor.
não te chamo.
vem!

sábado, 3 de março de 2007

# 31

meu amor, volto hoje para te escrever palavras que nunca te direi, cartas que não te enviarei. choro. o eclipse.
choro a sombra que tento afastar. a sombra de um fim em que não acredito. mas só posso acreditar. eu nada sei. o meu acreditar vem do amor. o meu descrédito de todos os gestos.
o meu amor morará num silêncio. ou num grito de silêncio como este que se prende na garganta, embacia os olhos, molha as mãos. vazias.
tento voltar a caminhar. é tão difícil caminhar sózinha. chegar e partir e ir e voltar sózinha. sempre só. sempre, sempre, sempre. sempre.
já olhei para outros homens, tento a aproximação, fugindo de seguida. não és tu. o que adiantaria estar com eles?! mais um erro na minha vida. ficarei só. ficarei só, amor? ficarei só com o amor por ti, meu amor?
calo-me para ti. não ouvirás nenhuma palavra sobre o meu amor. engolirei as palavras esperando que elas se dissolvam no meu corpo. não quero que me sufoquem. que tragam a mágoa do não amado. beberei as palavras até que um dia elas se tornem evaporação. nuvens que pairem sobre um mundo. melhor.
serão palavras. palavras desenhos ou vagos traços de ti. glóbulos.
serão silêncios. sons sem ecos. intervalos de pulsações.
sinto-me espectro de mim, de nós.
desalento
lento
tão lento, meu amor.