sábado, 3 de março de 2007

# 31

meu amor, volto hoje para te escrever palavras que nunca te direi, cartas que não te enviarei. choro. o eclipse.
choro a sombra que tento afastar. a sombra de um fim em que não acredito. mas só posso acreditar. eu nada sei. o meu acreditar vem do amor. o meu descrédito de todos os gestos.
o meu amor morará num silêncio. ou num grito de silêncio como este que se prende na garganta, embacia os olhos, molha as mãos. vazias.
tento voltar a caminhar. é tão difícil caminhar sózinha. chegar e partir e ir e voltar sózinha. sempre só. sempre, sempre, sempre. sempre.
já olhei para outros homens, tento a aproximação, fugindo de seguida. não és tu. o que adiantaria estar com eles?! mais um erro na minha vida. ficarei só. ficarei só, amor? ficarei só com o amor por ti, meu amor?
calo-me para ti. não ouvirás nenhuma palavra sobre o meu amor. engolirei as palavras esperando que elas se dissolvam no meu corpo. não quero que me sufoquem. que tragam a mágoa do não amado. beberei as palavras até que um dia elas se tornem evaporação. nuvens que pairem sobre um mundo. melhor.
serão palavras. palavras desenhos ou vagos traços de ti. glóbulos.
serão silêncios. sons sem ecos. intervalos de pulsações.
sinto-me espectro de mim, de nós.
desalento
lento
tão lento, meu amor.