domingo, 31 de dezembro de 2006

# 19

pensei poemas. imaginei as mais belas obras de arte. para te oferecer, meu amor.
pus tudo de lado. e aqui estou, com as minhas mãos. cheias de coisa nenhuma. vazias de tudo, excepto de mãos. neste momento um pouco enrugadas da água quente. estão quentes, para te receber. se viesses. não te espero. espero, mas não te espero. espero apenas porque te amo. não espero, não, apenas estou. é véspera de um ano novo. como se isso importasse... é mais um dia que se acaba. será um dia que começa se sobreviver à noite. penso, se eu morresse como lerias estas cartas? nem há ninguém que te diga, que tas envie. e este canto morreria comigo. talvez, e sorrio por pensar nisso, alguém as visse e sentisse que lhes eram dirigidas. talvez seja. talvez estas sejam as mais comuns e universais cartas de amor. e talvez eu ame quem as ler um dia, porque amo agora. neste pedaço de branco.
talvez não seja eu que ame, mas que seja um fio de amor, um fio condutor do amor que (ainda) existe... que está em tudo.
a morte, o amor, uma qualquer eternidade, sentida enquanto haja uma qualquer consciência. enquanto haja uma qualquer respiração. um movimento.
anoitece, meu amor. e lá fora há o silêncio dos ruídos quotidianos. e cá dentro, o quotidiano silêncio. de tantas vozes. mesmo as do silêncio vazias, cheias. são múltiplas as vozes do silêncio. tantas as suas formas. em cada minuto, em cada segundo. e insistimos em rasgá-lo, em colá-lo. mas de nada adianta. quando ele existe, quando ele se impõe, só podemos escutá-lo. nada mais do que escutá-lo. e apenas uma pequena coisa podemos fazer. estar de mãos vazias para o receber. ou estar de mãos dadas, meu amor.