quinta-feira, 26 de abril de 2007

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"Promete-me amor que hás-de ser meu para sempre amor. E que se alguma vez deixares de pertencer-me como agora, nem mesmo assim se perderá aquilo que aqui estamos vivendo. Prometes?- Como posso eu esquecer-te amor, se tu és afinal a minha infância?"



serás meu sim, para sempre. o amor foi meu, mais do que incorporá-lo, fui eu. sou. é a unica coisa de que tenho efémera posse. eu. um ser de não-ter. tudo o que sinto, sinto-o nas minhas veias, no coração acelerado ou tranquilo, na pele. na minha pele, fronteira. entre mim e outro eu que é o mundo que cheiro e beijo e toco. e engulo. e respiro.
como se perde o passado? o passado não é um molho de chaves. talvez até tenha havido uma série de chaves com que nós mesmos abrimos - ou fechámos - as nossas próprias portas. o passado não é um guarda-chuva para se perder. muito menos o é para nos proteger. anda, vem dançar à chuva. sentir mais uma vez a água escorrendo pelo rosto. pura ou dura, que importa? é chuva - ou lágrima-. é água. é vida. como um dia na infância. em que todos os sonhos eram possíveis. todas os esconderijos de pedra eram casas, e as nuvens, rostos e paisagens. e em cima das árvores estávamos, como se não houvesse mais nada, nem outros tempos ou outros lugares. como na infância, em que se existia sem as questões do existir. esquecidos de nos lembrarmos.

"Não pense, amor, que me deixou velha, amarga, voltada na direcção das portas que não se abrem agora sobre o infinito. Se quer saber, também não envenenou a minha alegria. A sua partida deixou em mim intactos o saber e o sabor dos frutos.
Consigo aprendi que viver é seguir o curso dos rios, acreditar na loucura dessa viagem, descobrir mesmo a poesia que pode haver nos impossíveis barcos. (...) Porém, não de todo exausta, ao contrário de muitas dessas mulheres que um dia foram ofendidas pelo homem. Sabe? Sobra-me ainda o sétimo fôlego da gatinha parda e de olhos cinzentos que renasce ao pé do lume. De novo no meu tempo, no tempo que volta a pertencer-me, estou pronta (...). Receberei pois a minha pomba.
"


de "Gente Feliz com Lágrimas", de João de Melo