a primeira baga
espero-te. livre e presa. em mim. não em ti. não porque nada sei de ti. se não fosse aquela imagem longínqua nem saberia dos teus olhos. quero gritar meu amor. aqui não vou apagar. é um compromisso comigo mesma! nada apagarei. serei pura como a água de uma nascente. brotarei. para mim, para ti, e de nós crescerá a flor. e nascerá a rosa. com as pétalas mais macias que a pele de um recém-nascido. serei flor selvagem, não túlipas ou orquídeas, flores caras e rebuscadas, serei uma papoila, uma urtiga. serei fruto silvestre, bagas. bagas vermelhas, carmim, roxas, liláses, azuladas. e por que não verde, amarela, castanha, cinzenta? raramente branca ou preta. estas não são minhas cores, são ausência ou somas. eu nunca só sou uma, sou eu e o meu complementar.
"Não sei onde te vi nem quando. Não sei se foi num quadro ou se foi no campo real, ao pé das árvores e ervas..."* Não sei se alguma vez te amei, não! sei que anseio por ti, e choro porque te calas. e um breve gesto teu é um sorriso no meu rosto. sei que quero pousar a minha mão na tua face. e acariciar os teus olhos. e tocar a tua boca. sei. sei que sinto esta força no meu peito. sei que me falta o respirar. que me pesa este respirar longe de ti. sei, não com o pensamento. sei-o no meu corpo. sinto-o na pele que se extira e se desprende quando te sinto dentro de mim.
meu amor. neste lugar surdo, eu digo-te . eu chamo-te, meu amor.
(*) Livro do Desassossego, Bernardo Soares
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